 | | Indústria em movimento | Edição Vozes do mercado | | | “Nem o açúcar nem o etanol está oferecendo muito em termos de margem. Para as usinas, será uma safra de aperto e atenção especial” | | O setor de açúcar e etanol é altamente dinâmico, fazendo com que o gestor de uma usina já acompanhe sempre muito de perto os movimentos do mercado. Ainda assim, o momento reúne alguns fatores que afetam diretamente a direção do negócio e que pedem um olhar ainda mais estratégico: os efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz, a lei do Combustível do Futuro e a crescente mistura do diesel, além da oferta de novas fontes para o biocombustível, especialmente o milho. | | Para entender esse cenário, conversamos com Andy Duff, gerente do departamento de pesquisa e análise setorial do Rabobank Brasil e estrategista global dos setores de açúcar e etanol. O papo foi longo, mas rico de insights valiosos de quem acompanha esse mercado com olhar clínico. Vale dedicar um tempo à leitura. | | A entrevista exclusiva você encontra nesta edição da Vozes do mercado, logo abaixo. | | Boa leitura! | | | | | | Pingue-pongue | | Andy Duff | | Gerente do Rabobank Brasil | | | | Indústria em movimento: De que cenário as usinas estão vindo, de 2025 e neste primeiro semestre de 2026? Andy Duff: Ao longo de 2025, o preço internacional do açúcar estava em queda constante, depois de passar por cerca de três anos de preços extremamente altos. É o ciclo das commodities: preços altos acabam acabando com os preços altos. Então foi uma virada de um ciclo de déficit global para um ciclo previsto como excedente global. Tudo indica que vai ser um ano difícil por preço. Um agravante dessa situação, no curto prazo, é que tudo indica que vamos ter uma safra grande ou muito grande aqui no Centro-Sul. Então, isso é um dilema do setor. Ou seja, vamos produzir bastante açúcar (e etanol) e, claro, o sinal do mercado internacional de açúcar é de que não precisa de mais açúcar do Brasil. Em vários anos anteriores, o mix foi altamente para o açúcar, porque oferecia uma margem melhor, e agora mudou. O racional seria: vamos virar a chave e produzir mais etanol. O problema é que a turma do etanol de milho está crescendo fortemente, então temos a cada ano mais etanol de milho no mercado. E com a safra grande de cana, vamos ter bastante etanol de cana também, ou seja, vamos ter um aumento bem significativo de oferta de etanol no mercado, o que indica que vamos ter um preço baixo de etanol também. | Indústria em movimento: E qual é a perspectiva de demanda? AD: Para vender esse etanol, você tem duas saídas. Uma é a mistura obrigatória de anidro e aqui temos notícia boa, porque vamos ver a mistura aumentar de 30% para 32%. Isso vai absorver um pouco da produção. Mas não é suficiente. E tem o mercado de hidratado, que concorre com a gasolina na bomba, ou seja, é por preço que você ganha espaço no mercado. E aí tem um terceiro elemento nessa história. O preço do etanol já caiu bastante desde março, desde o início da safra, e isso vai ser necessário para terminar o ano-safra com tudo vendido. E o preço da gasolina na bomba já subiu, mas não em linha com os preços internacionais. Com a subvenção do governo, o aumento vai ser imperceptível para o consumidor, que será protegido dos efeitos do conflito no Irã. O resultado é que nem o açúcar nem o etanol está oferecendo muito em termos de margem. Para as usinas, será uma safra de aperto de margem e atenção especial. | | | | Indústria em movimento: O dilema do mix persiste, então. AD: Temos também um dilema mais estrutural, que tem a ver com o aumento de capacidade produtiva, porque o setor de etanol de milho cresceu bastante. Há dez anos, quase não existia. Agora, é 25% ou mais da produção de etanol. E a lista de projetos é longa, então essa capacidade vai continuar a subir. Não dá para negar que o etanol de milho tem algumas vantagens competitivas fortes. Ou seja, o modelo de negócio se comprovou bastante robusto. Especialmente no Centro-Oeste, o milho é o mais barato do mundo. A matéria-prima é barata. Não tem muita correlação entre o preço do milho e o preço do etanol – não há garantia de que no ano em que você compra milho a preço alto, que o etanol vai ser alto e ajudar a gerenciar a margem. Mas o setor tem várias maneiras de gerenciar esse desafio. Um dos principais é a estratégia de compras: compram no auge da safrinha e têm armazéns enormes. Outra coisa é que o coproduto, o DDG, tem uma contribuição bem razoável na receita. E o preço dele tem algum vínculo com o preço de milho e de soja. Por quê? Porque ele basicamente vai substituir o milho na parte energética ou o farelo de soja na parte proteica, na ração em um confinamento, por exemplo. Então, de certa forma, você pode contar que, no ano em que o preço de milho é alto, o preço que vai conseguir na venda de DDG também será. Acaba sendo um colchão para a margem. Outra vantagem é que essas fábricas de etanol de milho rodam o ano inteiro, o uso do ativo é muito intenso. E outra coisa é que usina é um negócio agrícola – dois terços da cana são produzidos pela usina – e essa parte agrícola exige muito capex de manutenção. A necessidade de capital de giro e de capital em geral para esse ciclo constante de investimento é maior. E quando você tem juros a 15%, obviamente isso tem um custo também. Por tudo isso, o modelo de etanol de milho até agora deu muito certo em termos de resultado. | Indústria em movimento: O etanol de milho é concorrente ou complementar ao de cana? AD: Estamos vivendo a segunda crise energética mundial em quatro anos. Os outros países podem pensar em estabelecer uma mistura obrigatória. O etanol de cana não conseguiu convencê-los a fazer isso, porque existe essa arbitragem do setor entre etanol e açúcar. Então, se eu sou esse outro país e penso na mistura obrigatória, vou precisar me comprometer a comprar o etanol brasileiro. Aí no ano em que o preço do açúcar vai para o céu, será que esse etanol estará disponível para mim? O etanol de milho não tem essa arbitragem; eles produzem o ano inteiro. Então, por um lado, pode-se argumentar que são concorrentes. Por outro, o etanol de milho chegou para complementar e viabilizar a aceitação do etanol brasileiro na matriz energética. | Indústria em movimento: Há, inclusive, plantas flex, correto? AD: Já existe um punhado. Qual a vantagem? Primeiro o custo, geralmente menor, de montar essas unidades, porque parte delas já existe para a usina de cana. Outro aspecto interessante é que a eficiência energética das usinas de cana é tão grande que muitos acabam vendendo eletricidade para o sistema. Esse excesso de energia permite rodar a unidade de etanol de milho, ou seja, ele não vai precisar comprar energia. Enquanto, para as unidades stand alone, a energia é, hoje, um desafio para o crescimento. Eu diria que, se perguntar para muitas usinas, hoje, quais são os investimentos para os quais olhariam se tivessem recurso para investir, essa planta anexada de etanol de milho está no top 3, além, talvez, da irrigação e do biometano. | | | |  | | As usinas têm um potencial grande de investimentos. Mas todos os projetos, obviamente, exigem capital e vão esperar um pouco. É um negócio cíclico, então tem que escolher o momento." | |
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Indústria em movimento: Qual é esse cenário de investimento, hoje? AD: Esses projetos vão ser, no momento, engavetados, porque não é o ano para isso. Mas, no próximo ciclo de alta de açúcar e etanol, essa é uma avenida para o setor de cana poder lidar com a mudança estrutural do mercado. Muitos clientes têm projetos de irrigação. Passamos por duas secas relevantes nos últimos cinco anos, então todo mundo entende que o clima está menos previsível, mais extremo e é preciso se proteger. É também uma maneira de expandir a produção de maneira vertical, sem arrendar mais terra. Há também exemplos de bons investimentos em biometano, porque há vários subprodutos do processamento de cana que podem ser direcionados para o biodigestor, além de iniciativas no setor de transporte para buscar alternativas para o diesel, ou mesmo na própria frota da usina.
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Opinião
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O olhar do Andy Duff sobre a perspectiva de reequilíbrio do mercado:
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“Estamos observando projetos de etanol de milho pipocando em todo lugar, mesmo quando o mercado de etanol parece difícil. Por que isso acontece? Esses caras sabem que há regiões mais privilegiadas para a montagem de uma unidade de etanol de milho, porque estão em um mercado que tem um prêmio para o preço de etanol relativo à média, normalmente uma região de déficit de etanol e uma região de excesso de oferta de milho. Todo mundo pode fazer esse mapeamento, e o jogo é: vou colocar um projeto aqui antes do outro fazer isso, porque não tem espaço para dois projetos. Então há um tipo de gold rush [corrida do ouro]. Outra coisa é que vários estados estão oferecendo incentivos fiscais, porque isso cria empregos locais. No meu entendimento, esses incentivos têm uma contagem regressiva e vão acabar em 2032. Então, se eu tiver a ideia de montar um projeto, é muito melhor montar este ano e ter ‘x’ anos de incentivos fiscais do que esperar dois anos para começar. Então penso que esses são dois drivers que estamos olhando para a produção projetada crescer bastante e não necessariamente ser acompanhada pelo consumo. Daí esse desequilíbrio no mercado. Há, ainda, um desafio para os produtores de açúcar globalmente: todo mundo está falando de El Niño no momento. Vamos supor que um El Niño forte pegue vários países asiáticos, reduz a produção de cana e açúcar e, por isso, o balanço mundial vire de novo para déficit. O mundo vai olhar para o Brasil para reequilibrar o mercado. Mas, para fazer isso, o preço vai ter que subir para encorajar uma mudança de chave por aqui. Se isso acontecer, aliviaria aquele desequilíbrio. Mas pode não acontecer. Então acho que a solução mais de longo prazo, estrutural por natureza, seria a ampliação da demanda para o etanol. Há várias avenidas para isso. A mistura obrigatória não vai ser suficiente, mas ajuda. Outra tem a ver com o mercado local. Há vários estados onde não se vende uma gota de etanol hidratado, por questão logística e por uma estrutura de ICMS que não dá vantagem. A partir de 2029, pela reforma tributária, isso vai ter que passar por uma uniformização, o que deve abrir espaço para hidratado ganhar competitividade. Isso sabendo que 80% da frota no país é de carro flex; há uma demanda reprimida enorme. E a questão logística pode ser resolvida também, porque o etanol de milho está se espalhando nessas regiões, onde não tem representatividade do setor de cana. Além de tudo isso, temos gente séria no setor de transporte marítimo olhando o etanol como alternativa para eles. E tem o SAF, que só vai chegar em 2029, 2030, mas é possível. E é igualmente possível que outros países optem por importar o etanol brasileiro como matéria-prima para o SAF. Então, por enquanto, são essas as esperanças de como aumentar o uso de etanol para acompanhar a produção no futuro.”
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