Entrevista exclusiva com Elbia Gannoum, presidente da Abeeólica
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“Estamos em uma corrida global para ofertar energia limpa e renovável”
O setor eólico vive uma crise, mas já projeta a retomada para 2027. É um momento que pode parecer contraditório, considerando que o Brasil é o quinto maior país em capacidade instalada de energia eólica quando o mundo bate recordes de instalação e que essa fonte ocupa o segundo lugar em nossa matriz energética, com 14,1%. Ainda assim, as instalações caíram de 3,3 GW em 2024 para 2,3 GW em 2025.
O principal fator que levou à desaceleração? A entrada dos painéis da Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), que desequilibraram o jogo, levando aos cortes de geração, o curtailment. Já a retomada está traçada com base na demanda dos data centers e na descarbonização.
Para entender esse cenário, conversamos com Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).
A entrevista exclusiva você encontra nesta edição da Vozes do mercado, logo abaixo.
Boa leitura!
Pingue-pongue
Elbia Gannoum
Presidente da ABEEólica
Indústria em movimento: O setor está em um momento bastante crítico, ao mesmo tempo que a transição energética segue urgente e a energia eólica em destaque em nossa matriz. O que está acontecendo?
Elbia Gannoum:
A indústria eólica brasileira vem crescendo exponencialmente nos últimos 15 anos – lembrando que começamos há 20; é uma indústria muito jovem. A partir de 2023, percebemos uma redução na velocidade. Então não é uma indústria que parou de crescer. E ela continuou crescendo mesmo em períodos ruins da nossa economia. Mas, de 2023 para cá, houve uma avalanche de investimento em energia de telhado, a geração solar distribuída, que afetou os investimentos de grande porte, tanto em solar quanto em eólicas. Somado a isso, temos um problema de operação no sistema. Com essa energia solar de telhado, temos um excesso de geração das 10h às 16h. E o operador do sistema controla só os grandes geradores; ele não tem controle da energia de telhado. Então ele desliga os grandes parques eólicos e solares. Entramos em uma grande crise, com demissão, fechamento de fábricas.
Em 20 anos, a indústria eólica instalou 36 GW, enquanto a solar distribuída instalou 46 GW em quatro anos. Houve uma distorção de uma política criada para atender a classe mais baixa e o consumidor médio, mas que acabou virando um modelo de negócio de grandes lucros.
Indústria em movimento: Mas já há uma expectativa de retomada para 2027, correto? O que torna essa previsão possível?
EG:
Há uma retomada da economia, uma busca das empresas por descarbonização de seus processos produtivos e exigências internacionais que contribuem para a competitividade da energia limpa e renovável. Há grandes contratos de descarbonização, de grandes grupos do alumínio, do cimento e dos data centers, que são grandes consumidores e procuram lugares onde a energia é estável. Isso, do ponto de vista macro. No microeconômico, temos uma lei aprovada no ano passado que faz uma minirreforma no setor elétrico, trazendo soluções para o prejuízo dos geradores e para a instalação de baterias, já com o anúncio do leilão. Então eu carrego essa bateria no horário de excesso de oferta e às 18h devolvo a energia para o sistema, não sendo necessário cortar a geração.
Giro rápido
Os data centers são grandes consumidores. Uma indústria já consome muito, mas um data center pede 600 MW, 1.2 GW, de uma vez. Então, esses contratos já sinalizam uma retomada para o setor."
Indústria em movimento: O setor está pronto para essa retomada?
EG:
Ele já deve estar com ansiedade. O investidor do parque eólico precisa ter projetos já em carteira, redondos e estruturados, porque você demora três anos para desenvolver um estudo de viabilidade técnica e econômica de um parque. E o setor já tem, hoje, 40 GW em carteira. Ele está bem.
Indústria em movimento: Qual a mensagem mais importante para os gestores de parques eólicos neste momento?
EG:
Nós precisamos ter muita competitividade. Temos sempre que perseguir a redução de custo em produtos e processos, porque estamos em uma corrida global para ofertar energia limpa e renovável. O Brasil tem abundância desse recurso, mas tem que perseguir a competitividade, porque o preço vai ser um fator muito relevante nessa discussão. E essa corrida é complexa, porque reduzir custos é sempre muito complicado.
Opinião
E o hidrogênio verde?: “Tem um peso muito grande para a indústria eólica, mas enxergamos seu papel mais para o final da década, porque a tecnologia tem que vencer alguns desafios, principalmente de escada da produção do maquinário. O mundo apostou no hidrogênio a partir de 2026 e 2027, e depois em data certer, mas a situação se inverteu.”
E as offshore, também foram adiadas?: “Não. É que precisávamos de uma lei, que foi aprovada em janeiro de 2025. Muito em breve teremos o decreto que vai trazer as diretrizes gerais para a produção de energia no mar e vai haver um leilão. Para desenvolver um projeto, leva de cinco a seis anos. Então estamos desenvolvendo agora, justamente porque sabemos que, a partir de 2029, 2030, a demanda por energia no Brasil vai aumentar muito pela descarbonização, pelo hidrogênio, pelos data centers.”
E as mudanças climáticas?: “O impacto nos nossos parques é bem reduzido. E estudos mostram que os ventos vão ficando mais fortes, o que é bom para produzir energia eólica.”
O acordo Mercosul-União Europeia pesa na demanda por descarbonização?: “Absolutamente. A descarbonização é uma demanda estrutural por conta das regras internacionais. O Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), por exemplo, estabelece que os produtos que vão entrar na Europa a partir de 2026 têm que ter um alto grau de descarbonização. Como o Brasil é um grande exportador de commodities, vai investir fortemente nisso.
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